
Em O que Fazer Daqui para Trás, João Fiadeiro explora o tempo – duracional, suspenso, intervalar – e foca a sua atenção naquilo que fica, no que foi esquecido, no “resto”. O resto cria o vazio: é a prova da ausência de uma presença – ou melhor, é a presença de uma ausência. É no resto que se encontram os traços e os rastros para dar início à impossível tarefa de reconstruir o mundo, uma e outra vez. O resto é também o que está entre o corpo e a presença do outro, uma fuga permanente para coisas que ainda não são, para o que as coisas podem ser. O espetáculo, que faz uma crítica à urgência e à rotina acelerada, se posiciona entre a dúvida e a possibilidade. Nele, o não dito é mais importante do que o que se diz, a ausência se sobrepõe à presença e o drama não vem do teatro, mas daquilo que os corpos – dos performers e dos espectadores – podem, têm e trazem.
