Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e todos os demais envolvidos com a área da saúde estão na linha de frente do combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Além de estarem mais expostos à doença, também precisam enfrentar as dificuldades em lidar com vidas e sentimentos pessoais em meio à pandemia.

 

Para ajudar quem cuida da população, foi criada a Rede de Apoio Psicológico, uma plataforma que conecta profissionais da saúde que estão na linha de frente da pandemia a psicólogos voluntários em todo o Brasil dispostos a atendê-los gratuitamente.

 

O projeto nasceu a partir da mobilização de cinco psicólogos: Camila Munhoz, Evelyse Stefoni de Freitas Clausse, Luciana Lafraia, Jonas Boni e Marina Bragante. A iniciativa conta, ainda, o apoio do gabinete da Deputada estadual Marina Helou (Rede-SP), da Evelyn Gomes, do Cuidame, e do Nossas.

 

Os atendimentos devem ser online, gratuitos e pontuais. A rede funciona da seguinte maneira: quando a conexão for feita, a equipe responsável vai enviar aos profissionais de saúde inscritos um WhatsApp com o e-mail do (a) voluntário (a) e orientações para que agende uma consulta. Enquanto isso, também enviará uma mensagem para o psicólogo ou psicóloga, que vai esperar o contato.

 

Rede de Apoio Psicológico
A iniciativa nasceu a partir da vivência dos próprios psicólogos, que começaram a receber em seus consultórios relatos de angústia e medo de trabalhadores da saúde. No entanto, também há estudos para embasar a necessidade de apoio para os profissionais.

 

Uma pesquisa da Escola de Medicina de Zhejiang, na China, mostrou que uma quantidade considerável de profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus relatou ter sintomas de depressão, ansiedade, insônia e estresse — especialmente entre as mulheres que são maioria nos cargos de enfermagem.

 

Segundo o estudo, esses profissionais têm uma probabilidade até 95% maior de desenvolver depressão e podem precisar de suporte e intervenções psicológicas.

 

“Numa situação de crise, o sujeito perde as balizas do cotidiano dele. Do que ele acredita. E num atendimento pontual, a gente pode tentar recuperar algumas delas. E isso ajuda ele a se movimentar no meio caótico em que está trabalhando”, explica a psicóloga Camila Munhoz, do grupo Faces do traumático do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. “É como se a pessoa tivesse que recuperar algo de si muito fundamental para poder continuar. E é isso que uma escuta pontual se propõe a fazer”, completa.

 

Mais de 3.800 psicólogos já se inscreveram e mais de 400 conexões foram realizadas na primeira semana de testes. “Nossa expectativa é que a ferramenta chegue nos quatro cantos do país e apoie o maior número possível de agentes da saúde”, avisa Marina Bragante, psicóloga e chefe de gabinete da deputada estadual Marina Helou.A parlamentar

 

acredita que essa iniciativa tem um grande potencial. “Profissionais da saúde estão entre nossos grandes heróis na linha de frente. E estamos falando apenas dos médicos, mas também dos enfermeiros, dos recepcionistas e profissionais de limpeza do hospital e de todas as pessoas envolvidas para que o sistema continue funcionando”, explica Marina.

 

A gestora cultural e terapeuta social, Evelyn Gomes, chama a atenção para a importância de iniciativas que articulem políticos e sociedade civil. Ela é uma das idealizadoras do CuidaMe, plataforma que conecta profissionais de saúde mental a políticos e seus gabinetes.

 

A ferramenta ainda contou com o apoio da equipe do Mapa do Acolhimento, uma rede de solidariedade que conecta mulheres que sofreram violência baseada no gênero com psicólogas e advogadas voluntárias, idealizada pelo Nossas.

 

Quais as angústias dos profissionais de saúde
De acordo com os psicólogos, as angústias e preocupações dos agentes de saúde são singulares. “Apesar de toda sociedade estar passando por dificuldades semelhantes, tais profissionais passam por conflitos pessoais e éticos de modo acentuado. Poder escutá-los em suas angústias tão legítimas, pode fazer com que se sintam amparados”, alerta Jonas Boni, psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo.

 

A psicóloga Evelyse Stefoni de Freitas Clausse, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e uma das idealizadoras, complementa: “Além de vivenciarem toda mudança social que está em curso, o medo do contágio e a angústia de serem vetores do vírus, emocionalmente experimentam uma posição de grande desamparo”.

 

Segundo ela, enquanto alguns podem (e devem) ficar em casa, eles precisam trabalhar. “Muitas vezes sem contar com uma rede de apoio pessoal e tendo que tomar decisões cotidianas que se tornam difíceis, como com quem deixar os filhos ou quem cuidará dos pais desses profissionais. Além de pensarem no quanto precisarão eventualmente fazer escolhas difíceis em relação aos próprios pacientes e o quanto isso trará de sofrimento para eles. Há uma clara oscilação entre o heroísmo e a impotência”, diz a psicanalista.

 

No entanto, o recado principal deveria ser de que tudo vai passar. “Os profissionais da saúde, assim como todos nós, devem ter em mente que isso vai passar. Que por pior que esteja sendo o momento vivido, ele passa. Não sem deixar marcas, não passaremos impunes a essa pandemia. Momentos traumáticos congelam o tempo, precisamos resgatar essa dimensão, haverá um amanhã”, desvenda Camila.

 

Suporte aos voluntários
Seguindo a mesma lógica de cuidar de quem cuida com respeito e sigilo profissional, a plataforma vai oferecer uma rede de dispositivos de suporte para os psicólogos voluntários.

 

Luciana Lafraia, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela USP e doutoranda da Université Bourgogne-Franche-Comté, explica que essa rede contará, inicialmente, com grupos de apoio que visam “proporcionar um continente onde os psicólogos possam processar em grupo as repercussões e impactos dos atendimentos em si mesmos”.

 

Os encontros, cujos horários são enviados por e-mail aos voluntários cadastrados, são coordenados por psicólogos com experiência em trabalho com grupos e visam propiciar tratamento grupal à experiência dos terapeutas nos atendimentos, ao mesmo tempo em que permitem escutar e conhecer melhor suas demandas quanto ao suporte.

 

Luciana conta que pretende-se, a partir dessa escuta inicial e do contato com outros grupos e associações de profissionais, organizar a ampliação das modalidades de apoio oferecidas, possivelmente com supervisões grupais, individuais e discussões clínicas com abordagens diversas.

 

Os psicólogos da plataforma contam também com os apoios da psiquiatra Gabriela Viegas Stump, do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, coordenadora da psiquiatria da infância e adolescência do núcleo de especialidades pediátricas e coordenadora científica da pós de saúde mental do Hospital Sírio Libanês, e da infectologista Ângela Carvalho Freitas, do HCFMUSP.

 

Fonte: Catraca Livre.


Obs: As informações acima são de total responsabilidade da Fonte declarada. Não foram produzidas pelo Instituto Pinheiro, e estão publicadas apenas para o conhecimento do público. Não nos responsabilizamos pelo mau uso das informações aqui contidas.