Em apenas uma semana de isolamento, o aumento de denúncias de violência doméstica na cidade do Rio de Janeiro foi de 50%, surpreendendo até mesmo as autoridades da área. O padrão era esperado, contudo. Durante a quarentena, China e Itália também tiveram médias elevadas. “Num isolamento, sobem as tensões familiares”, explica Mafoane Odara, gerente do Instituto Avon, que combate a violência contra a mulher e promove o empoderamento feminino.

 

Há, primeiro, o medo da situação inédita e inesperada. E o acúmulo de muitas tarefas. Trabalho de casa, tarefas domésticas, as crianças cheias de energia, a preocupação financeira. Essa bola de angústias leva a limites e, se não houver espaço de mediação e diálogo, pode aparecer a violência.

 

Conversamos com Mafoane sobre as atitudes que devem ser tomadas em tempos de isolamento social. Um aviso ela destaca: “Saia de casa, mesmo durante a quarentena, caso sofra violência. Os órgãos estão trabalhando para ajudá-la como sempre”.

 

Como a vítima deve agir em caso de violência?

Uma coisa muito importante para a gente entender é que uma mulher que está numa relação abusiva se sente muito sozinha. E, na situação que vivemos atualmente, isso se intensifica, o sentimento de solidão é maior. O silêncio e o isolamento são os maiores aliados da violência. Precisamos lembrar da capacidade de aproximação da tecnologia. Há os chats de conversas e aplicativos desenvolvidos para atendimento jurídico e psicológico. O Conselho Federal de Psicologia já autorizou os atendimentos a acontecerem virtualmente. E também o lado das pessoas queridas. Ligar para as amigas diariamente, trocar sobre situações que acontecem dentro de casa. É fundamental estabelecer uma rede de apoio, mesmo que virtual.

 

Apesar desse apoio virtual, se for necessário, a mulher deve sair de casa?

É importante lembrar que não existe só violência física, mas também psicológica. E a mulher deve ter um plano de segurança, um conjunto de ações para se proteger e proteger a família. Se se sentir em risco, ela deve ir para uma área perto de porta ou janela, uma rota de fuga. A mulher não deve ir para locais com armas em potencial, como facas ou ferramentas. Também é recomendado deixar na discagem rápida o número da polícia, que continua funcionando normalmente. Caso tenha vizinhos confiáveis, salvar o número deles para ligações de emergência é recomendado também. Além disso, sugerimos deixar pronta uma bolsa com itens importantes, como dinheiro, documento, roupas, alimento.

 

Então, o isolamento deve ser quebrado em qualquer tipo de emergência, como é um pedido de medida protetiva. Os órgãos responsáveis estão de plantão, a mulher precisa apenas pesquisar o endereço para onde deve ir. Em São Paulo, um programa recente da prefeitura garante auxílio-aluguel de 500 reais para mulheres vítimas de violência ou ainda há a Casa da Mulher, iniciativa estadual para atendimento e acolhimento.

 

E como agir com os filhos? Eles devem ir junto?

Muitas crianças presenciam o processo de violência. Os filhos sabem que tem algo errado e é importante discutir isso com eles, e não esconder. O importante é trazer elementos para a conversa que façam a criança entender o que está acontecendo. E destacar que há uma relação entre os pais e outra entre eles – nem sempre situações de violência envolvem as crianças. A saúde emocional dessa criança deve ser bem preservada. Contudo, informe às crianças o que elas devem fazer caso a violência se confirme, explique a quem devem pedir ajuda. Muitas crianças hoje já ligam para o 180, por exemplo.

 

A situação após a pandemia deve ser ainda pior. Sabemos que crises econômicas são mais um impedimento para que as mulheres vítimas de violência consigam deixar a relação, afinal elas têm medo de não conseguir se sustentar ou à família. Há iniciativas pensando já nesse período?

 

Sim. O relacionamento abusivo afeta quatro dimensões femininas. A primeira é a autoestima. A mulher acha que não é nada sem o homem, que a vida dela depende da dele. A segunda é a dimensão econômica. Ela não consegue romper o ciclo porque depende dele. A terceira é a dos filhos e a família, a ameaça de perder isso. Ela tem medo de ter sua competência para criar os filhos questionada, então muitas vezes espera as crianças crescerem antes de ir embora. E por fim uma dimensão social, de perder as pessoas ao seu redor. Essas dimensões envolvem muita gente: o empregador, a creche ou escola, a família. Ter esforço governamental nesse sentido é essencial, mas também é necessária a responsabilidade intersetorial, de todo mundo pensar como pode auxiliar nesse processo. Ajudar a mulher no processo de autonomia financeira e empregabilidade é fundamental.

 

 

Há alguns programas públicos como o Tem Saída, também em São Paulo. Mas eu acredito que deva existir um esforço de todas as partes da sociedade para proteção dessas mulheres. Isso inclui as empresas que precisam pensar em funcionárias que vão estar nessa situação. As vítimas de violência tem o componente adicional da fragilidade em todo seu sofrimento, portanto elas precisam de ações que vão desenvolver habilidades sociopsíquicas para ter mais autoestima, resiliência, capacidade de liderança e gestão, características essenciais para manter um emprego e ter sucesso na vida profissional. Isso ajuda a mulher na reinserção ou na evolução dentro do mercado de trabalho.

 

Deveríamos cobrar de todos os setores políticas claras nesse sentido e também cobrar para que sejam colocadas em prática. Esse é nosso papel social. Essa hora que vivemos é ideal para olhar em volta e pensar qual sua responsabilidade na sociedade em que vivemos. “Eu tenho mais educação, o que posso fazer por quem temo menos?” “Eu tenho mais dinheiro, o que posso fazer por quem tem menos?” “Como meu negócio pode favorecer o processo de cuidado das mulheres?” É muito fácil cair na armadilha que cada um vai resolver seu próprio problema, porém a gente só evolui como sociedade quando olhamos para todos.

 

Há algum canal virtual que a mulher posso buscar informação e ajuda?

O Mapa do Acolhimento reúne mulheres e advogadas dispostas a ajudar de maneira voluntária as vítimas de violência contra as mulheres. Outro aplicativo interessante é o Penhas, desenvolvidos pelo AzMina. Ali tem uma série de informações sobre como criar rede de apoio, além de acolhimento e instruções sobre como fazer denúncias de violência.

 

Fonte: Claudia.


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